domingo, 7 de dezembro de 2008

Vade Mecum

Olhava pro chão batido, deixando cair umas gotas de suor, sangue e pedaços de mim. Meu peito arfava, e minha espada nunca pareceu tão pesada. Mas mais pesado do que a minha espada, era o aperto no meu peito, a vontade de jogar a armadura amassada no chão, e cair de joelhos, esperando alguma coisa ou alguém. Mas eu sabia que não faria isso. Estava acostumado a lutar sempre, para párar agora.

Ainda conseguia escutar os gritos. Os malditos gritos das batalhas anteriores. Dizem que quando se mata alguem carrega-se o peso das almas em suas costas. As minhas viviam apinhadas de espiritos desgraçados de memorias abandonadas e deixadas ao leu. Almas de antigos inimigos, de amigos que morriam em combate. A espada erguia-se em violento golpe. Um ultimo resquício de força que ainda havia e com o peso da descida meu corpo seguia junto. Junto ao grito que motiva o golpe ia o último suspiro de um guerreiro cansado. O respirar arfante, o gosto do sangue, o suor misturado ao sabor áspero da terra. Havia dor, haviam cortes pelo corpo, marcas que se somariam a tantas outras e que passavam pela armadura outrora prateada. Mas não era momento de párar. A batalha ainda não havia terminado. Ela nunca termina. O corpo doía a cada pensamento em movê-lo. Mas ergui a cabeça puxando para mim um rastro de ar, e me apoiando na espada levantei novamente. Havia mais uma batalha para lutar.

E eu olhei pr'aquele outro igual. Tão diferente, dito inimigo, na minha frente, tão ferido e cansado como eu. Tão perdido e destemido como eu. Tão corajoso e tão fraco como eu. Ambos guerreiros coroados. Ambos pessoas notáveis, que causavam arrepios. Ambos cansados, querendo um porto, e sem coragem de pedir. Lutei diversas guerras, matei diversos monstros, mas nunca fui capaz de pedir ajuda, nunca fui capaz de dizer que doía. Meu peito apertava, mas eu sabia, sempre haveria uma outra luta, uma nova guerra, mais sangue, nunca silêncio. Nunca risos verdadeiros, nunca tempo para encostar a cabeça no travesseiro com paz. Eu viveria mil anos lutando, mas não conseguiria pedir cinco minutos de conforto. Agora olhava para aquele irmão de armas na minha frente, e sabia, era o fim, que fim?

Ali estava. Meu novo inimigo. Ergui-me ferozmente como sempre o fiz diante de qualquer dificuldade. Fosse diante de meus protegidos ou diante de mim mesmo. Uma falsa força que me obrigava a seguir. A oferecer-me em sacrificio quando o próprio aço da minha armadura poderia me sufocar. Mas aceitei o meu destino e postei-me diante daquele outro irmão de guerra. A espada era retirada do apoio ao chão. Para seres como nós não haveria descanso. Não havia luz, nem trevas. Não havia porto seguro. Jamais seria diferente. Os momentos de paz eram ilusórios e utópicos. Quando não lutava as minhas batalhas, estava intríseco em batalhas alheias. Meus olhos se perdiam na ira da batalha e o grito de motivação era dado mais uma vez. Eu precisava seguir e atacar... Eu precisava acabar com aquela batalha. Com aquele guerreiro que estava ali disposto a derrubar a minha muralha e invadir a minha cidade. Precisava mostrar que não era desprotegido e que não seria tão facil conseguir o que queria. O grito de motivação fora dado, e com ele, a fúria da espada descia na direção do guerreiro inimigo. Que venha a morte, a senhora de todos nós.

Eu tinha que lutar. Eu queria lutar. Não, não queria. Eu estava cansado. Não dos ferimentos, mas da alma. Cansado de tanto medo, cansado de tanta solidão. Nunca deixei ninguém ver além da minha armadura, do brilho da minha espada. Nunca ninguém atravessou aquele fosso, nem quando eu mesmo dei a minha mão. Aqui é longe, e complicado. Seco e árido. Mas eu ainda respirava, cada ar dentro do pulmão dóia e me fazia querer gritar. Mas eu sabia. Sempre o soube. Morreria lutando. Morreria só. Encolhido e só. Será que ainda poderíamos mudar o destino? Será que eu poderia mudar?

* Esse texto é o início de uma micro-série. Gabriel e eu começamos a escrever há um tempo, e fomos adcionando, adcionando, adcionando... No fim, fiquei com pena de editar, porquê gostei muito. Portanto, às partes. Espero que gostem.
E Gabriel, eu sei que ando em falta contigo. Sorry pela falta de atenção esses tempos, mas tu sabes que gosto muito de ti, Dom!

* Lembrei que tem alguém me devendo um texto!

15 comentários:

João Pereira disse...

tens é que actualizar o outro blog:D

João Pereira disse...

O teu outro blog?! Desapareceu?! :(

Bill Falcão disse...

Esse início é legal!
Bjooooooooo!!!!!!!

Anna Bueno disse...

Gostei desse comecinho e mais ainda do último parágrafo.
Bjos e boa semana!

vida cotidiana disse...

Texto muito bom, você vai continuar a postar aqui a continuação? bjs

minicontosperversos disse...

arruma uma musa inspiradora pro cara que ele quebra tudo! sim, continuamos românticos

2) cadê o outro blog, o da viagem?

iara disse...

muito bom o texto taynar.
luta, sangue, suor...
bj

Aline T.H. disse...

Eu quero o texto todo! Você é má, eu não sei seguir novela, menina, sou ansiosa demais! rs

Beijo, querida.

Gabriel Sandman disse...

Ora..ora.. nem achei que publicaria mais, mocinha. Como estão as coisas D'Alem Mar?!
Ainda bem que sabes que andas em falta!!
Espero que tudo esteja correndo bem, fora o frio.

Ow povo que sabe cobrar eheim? Essa gente caloteira é fogo!

MELISSA S disse...

Texto ótimo, Taynar! Muito profundo... Bjs

MELISSA S disse...

Texto ótimo, Taynar! Muito profundo... Bjs

D.Ramírez disse...

eu sempre falo que se o Brasil fosse uma poetncia, Harry Porter e outros seriam cafe com leite perto de um texto como esse.
Eles ainda terão q aprender.
Digno mesmo!!!
Besos

Cesar Oliveira disse...

mt bom o texto. vc escreve maravilhosamente bem..

bom te ler..

Monday disse...

épico ... e delicioso! me lembra os filmes de batalhas medievais ... que eu adoro!

Jhennifer Cavassola disse...

Já tinha esquecido o quanto esse blog me envolve, o quanto sua escrita me envolve. Parabéns sempre!!!

Como vc ta?? Ah tenho uma nova. Serei mamãe. Estou tão feliz!! Coisa boa! Beeijos :)