sexta-feira, 2 de outubro de 2009

What's in my pocket, you'll never know

Num mundo sempre visto como fragmentado, difuso, efêmero e todas essas palavras bonitas, com ou sem muito significado, que as pessoas usam tão despreocupadamente e sem realmente se responsabilizar, existem várias coisas que não existem, de fato, na vida.

Estar em um não-lugar, aquele tipo de espaço que é sempre o meio, a passagem, nunca o lugar onde realmente vais estar, é só, como dito, uma passagem, te faz pensar sobre as várias pessoas não-pessoas com quem esbarras nessas várias inter-estaduais 60 da vida.

Não lugar, não pessoa. Aquela que encontras por alguns segundos, dias, ou que apenas ves, mas que guardas impressa na memória, uma marca tênua, mas indelével de que algo esteve ali, e que mais tarde, ao rever aquele filme já quase apagado pelo tempo, a única coisa que consegues captar é um borrão, uma vaga idéia de quem um dia foi alguém. Igual a caixa de sapatos suplantada, esquecida em algum canto qualquer, cheia de negativos, que já perderam a cor, mas que ainda tem um significado. Seja lá o que quer que isso signifique.

Não se sabe porque, como ou ainda a razão de elas estarem e não estarem ali. Ainda que eu tenha certeza de que não se passa muito tempo questionando esses motivos. Em geral, pra quê?

A menina do metrô, que começou a chorar pelo namorado que tinha partido; a moça de nacionalidade indefinida sentada na cadeira de trás, cantando “Halleluiah” na melhor versão; o loiro jovem e efusivo que te disse ‘bem vindo’ numa cidade estranha; o homem bonito do qual eu não lembro o rosto, mas para quem contei meus planos; o conterraneo perdido no mundo, indo para o país dos sonhos; o casal de idosos, entrando num carro, tão parecidos que podiam ser um só; o homem com cara de ator latino que cansou de olhar para a mulher do assento ao lado; o cara com tatuagens tribais e olhar misterioso e ao mesmo tempo perigoso; a adolescente impaciente no terminal, retocando maquiagem; o homem bonito que sorriu a noite toda pra ti e que, de repente, sumiu; ou ainda a estranha que tu nunca mais vais ver, mas que ainda assim, está aí...

Tudo isso me faz pensar sobre quantas vezes somos e fomos uma não-pessoa.

A menina de uniforme chorando copiosamente na rua; o estudante desengonçado segurando uma bola, a garota toda arrumada que subitamente caiu numa escada; o viajante com cara de desespero, que olhava dois mapas, de mochila na costa; a incoveniente da poltrona ao lado; ou ainda, simplesmente mais uma idéia abstrata andante, sem nome, sem bagagem, sem rosto. Um espaço ocupado pelas leis da física, mas um não sem espaço nas leis do homem.

Quantas vezes somos alguma coisa pra alguém, ao mesmo tempo em que não somos nada?

Quantas idéias vagas será que somos por aí? Quantos nãos alguém pode ser?

3 comentários:

Palazo disse...

Interessante isso Tay... tantas histórias que se passam a nossa volta e nós nem fazemos idéia que elas existem, elas apenas passam por nós... e viram borroes na nossa história...

E somos essas "não-pessoas" tantas vezes que nem percebemos, mas passamos pela vida das pessoas... triste? acho que nao... dizem que a vida é uma passagem entre o nascimento e a morte, mesmo q eu nao concorde...rss

Beijos

xoogle disse...

"Tudo isso me faz pensar sobre quantas vezes somos e fomos uma não-pessoa."

Não acredito na existência de não pessoas. Acredito na existência de pessoas que não reparam em pessoas e por isso acha que elas não existam. Essa não é você. Você repara [ou reparou num instante]. E porque repara elas não são mais não, elas são sim.

Há os que não reparam. Mas nem os que não reparam detém o poder de tornar não as que são sim.

Mas, estamos, aos poucos, acreditando que existem espectros de gente e com isso nos matando pouco a pouco, porque, aquele que não é, no fundo, no fundo, sou eu.

Bjo.

Ivan.

Glad to see u back from wherever u've gone, hammering girl. Be still.

carlos massari disse...

pessoas são pedaços de todos com quem conviveram e de tudo o que viveram. mais que isso, sou totalmente adepto da teoria de milan kundera - existem milhões de você, cada um com os fragmentos diferentes das pessoas e das memórias.